Dos buquês

Eu sempre tive vergonha daquela cena típica nos casamentos. Não por mim, que ficava grudada de terror na cadeira mais próxima, mas principalmente pelas alvoroçadas solteiras de plantão, que não raro se estabacavam no chão travando verdadeiras lutas greco-romanas pela posse do mais valioso item do matrimônio: o buquê.
Anos se passaram sem nenhuma novidade nesta área até que, recentemente, a direção do vento literalmente mudou. E eu me tornei um ímã de buquês. Tenho a impressão de que se jogassem um maço de flores do alto de uma árvore nas florestas semi-temperadas da Normandia, ele aterrisaria bonitinho nas minhas mãos. E tenho testemunhas.
Explico-me: minha primeira vez (!) foi há dois anos. Casamento do irmão, poucos convidados. Por respeito ao irmão e à cunhada, decidi participar do montinho de mulheres esperando o referido ramalhete cair. Por respeito às descasadas mais desesperaradas, resolvi ficar no cantinho, mais para compor a foto que na esperança de ser agraciada com um presente dos céus. Mas os céus me reservavam outro destino. Depois da clássica jogada "de mentirinha" e da contagem um dois três, lá vem aquela maçaroca de orquídeas voando em minha direção. Nessa hora, o instinto falou mais rápido - e entre pagar o mico e deixar aquelas flores tão lindas se espatifar no chão, escolhi a segunda opção. Estiquei a mão e pum!, estava feita a fama.
Na segunda vez, o noivo (que na época ainda atendia pela alcunha de Namorado) estava lá. Me empurrou para o meio da mulherada, que a estas alturas não aguentava mais de excitação - atiçada por frases do tipo "Fulana, ainda há esperança" proferidas em altos brados por algum engraçadinho no microfone. Mais uma vez a cabeça ditou as ordens: esquivar sempre. Mas aí aconteceu o impensado. A noiva, não sei se por excesso de champanhe ou possessão atlética, resolveu colocar toda a sua força na hora de lançar o buquê. Em uma fração de segundos, percebi que tinha duas opções - me defendia ou perdia um olho, talvez os dois. Coloquei as mãos na frente do rosto a tempo apenas de me proteger, e mais uma vez pum!, fui atingida. Só que, dada a minha posição, só um goleiro da seleção conseguiria defender o pênalti e agarrar a bola ao mesmo tempo - e o buquê veio ao chão, junto com a irmã da noiva, que quase perdeu um lado do vestido mas ganhou a honra de ser "a próxima a casar".
Não obstante um padrão que se formava, na terceira ocasião eu acreditava que REALMENTE podia sair ilesa. O casamento era num sítio, e o vento com certeza iria amortecer a velocidade do ramalhete, fazendo com que ele parasse na fileira de solteiras da frente.
Certo?
Errado.
A noiva arremessou as flores com uma precisão cirúrgica - e desta vez eu, que estava posicionada no lugar mais improvável possível, não precisei nem estender o braço para apanhar o tal buquê. Abri a mão e ele estava lá - parecendo até rir da minha cara.
O noivo, claro, teve que ouvir as piadinhas de predestinação a noite toda.
Agora já estou de casamento marcado - mas este ano ainda tenho pelo menos três festas pra ir. Quem sabe?


